900 ANOS DA BATALHA DE SÃO MAMEDE (1128-2028)
As comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede afirmam-se, hoje, como um dos mais significativos desígnios de reflexão histórica e de afirmação cultural do Portugal contemporâneo. O que começou por ser uma iniciativa de matriz municipal, concebida em Guimarães, transformou-se progressivamente num projeto de dimensão nacional, convocando a comunidade científica, as instituições culturais e o Estado na construção de uma narrativa partilhada sobre as origens e a formação de Portugal.
Desde logo, importa sublinhar que a Câmara Municipal de Guimarães, em junho de 2023, assumiu a responsabilidade pioneira de estruturar um programa comemorativo alargado, com horizonte temporal entre 2023 e 2030, centrado na efeméride de 2028. Nesse contexto, foi deliberada a criação de uma Comissão Científica de reconhecido mérito académico, presidida honorariamente pelo Professor Doutor José Mattoso e coordenada pelos Professores Doutores Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca. Esta comissão, integrando investigadores nacionais e estrangeiros de referência, traduziu desde o primeiro momento a ambição de ultrapassar a mera celebração comemorativa, afirmando antes um programa de reflexão histórica rigorosa, plural e interdisciplinar sobre o processo de formação de Portugal.
Este impulso inicial municipal encontrou, entretanto, eco e reconhecimento a nível nacional, consagrado na Resolução da Assembleia da República n.º 141/2026, que veio sublinhar a relevância histórica da Batalha de São Mamede como acontecimento estruturante da identidade política portuguesa, recomendando a valorização das comemorações no plano educativo, cultural e científico. De forma complementar e particularmente significativa, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2026 veio institucionalizar o enquadramento do programa comemorativo, reconhecendo-lhe natureza nacional e assegurando a sua articulação interministerial, estabelecendo ainda a sua sede operacional em Guimarães, enquanto espaço simbólico e histórico de referência incontornável.
A centralidade de Guimarães neste desígnio não é circunstancial. Tal como sublinhado no memorando científico que acompanha a génese do projeto, a compreensão da Batalha de São Mamede deve ser enquadrada num processo histórico longo, complexo e não linear de formação política, territorial e identitária. A Pátria, a Nação e o Estado português não emergem de um único acontecimento fundador, mas de uma sucessão de conjunturas, decisões e circunstâncias que, ao longo do tempo, foram configurando uma realidade política própria no contexto do Noroeste peninsular.
Neste sentido, a Batalha de São Mamede, travada em 24 de junho de 1128, assume-se como um momento decisivo desse processo de reconfiguração política, ao contribuir para a afirmação do jovem Infante Afonso Henriques e para a progressiva autonomização do espaço portucalense face aos poderes envolventes. Mais do que um ponto de partida fechado, trata-se de um marco estruturante de um processo dinâmico de formação, que deve ser compreendido na sua complexidade histórica e na sua profundidade temporal.
As comemorações dos 900 anos de São Mamede são, por isso, mais do que uma evocação do passado. São um exercício coletivo de compreensão do presente e de projeção do futuro. Ao mobilizar a investigação científica, a ação cultural e a participação institucional, este programa comemorativo afirma-se como um espaço privilegiado de reflexão sobre Portugal e sobre as múltiplas identidades que o constituem.
Guimarães, enquanto território matricial dessa memória histórica, assume naturalmente um papel central neste percurso. Foi aqui que se consolidou um momento decisivo da história política portuguesa e é a partir daqui que hoje se relança uma reflexão alargada, nacional e contemporânea, sobre os caminhos da formação de Portugal.
José Nobre
Diretor do Departamento de Cultura e Turismo

