Aprender para Servir Melhor: o Trabalho em Transformação no Serviço Público
O 1º de Maio, Dia do Trabalhador, lembra-nos que o trabalho é, antes de tudo, uma realidade humana feita de pessoas, de percursos, de aprendizagens e de transformação. É também uma data que nos convida a olhar para o futuro, para a forma como as profissões evoluem, como as organizações se adaptam e como o serviço público se reinventa para responder a uma sociedade acelerada.
Hoje, a Administração Pública enfrenta desafios inéditos. A complexidade das políticas públicas, a digitalização dos serviços, a pressão por maior eficiência e a exigência de cidadãos cada vez mais informados colocam uma responsabilidade acrescida sobre quem trabalha no setor público. A qualidade do serviço prestado depende, de forma direta, da capacidade de desenvolver equipas qualificadas, atualizadas e capazes de responder a problemas que mudam mais depressa do que nunca.
É aqui que a aprendizagem organizacional assume um papel absolutamente estratégico. As organizações públicas que integram a aprendizagem nos seus processos tornam-se mais ágeis, mais qualificantes e mais preparadas para enfrentar desafios complexos. A formação deixa de ser um evento pontual e passa a ser uma ferramenta de modernização administrativa, de inovação e de melhoria contínua.
Organizações internacionais como a OCDE têm sublinhado que a evolução tecnológica e a transformação digital exigem serviços públicos capazes de renovar continuamente as suas competências. O ritmo de mudança externa é hoje tão acelerado que torna essencial reforçar a atualização técnica, a literacia digital e a capacidade de adaptação dos trabalhadores do Estado. Esta necessidade é amplamente reconhecida em vários países europeus, onde a formação contínua é encarada como um pilar da qualidade do serviço público e da capacidade de resposta às novas exigências sociais.
Mas esta transformação não é apenas estrutural, é profundamente humana. Cada trabalhador do setor público traz consigo um percurso único, feito de saberes académicos, experiência acumulada, tentativas, erros e conquistas. É dessa diversidade que nasce o verdadeiro valor das equipas. Quando a organização reconhece esta riqueza e cria condições para que cada pessoa continue a aprender, está a construir muito mais do que competências, está a construir identidade, pertença e futuro.
Vivemos num tempo em que a aprendizagem ao longo da vida deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade. O conhecimento muda tão depressa que já não basta “saber fazer”, é preciso saber evoluir. E essa evolução acontece quando conseguimos articular o que aprendemos na formação com o que vivemos no trabalho, transformando saberes dispersos num saber-estar que nos permite crescer com confiança.
A Inteligência Artificial (IA), em particular, está a reconfigurar profundamente o trabalho. E aqui os dados são claros: um estudo do Centro de Estudos Aplicados da Católica – Lisboa, realizado para a gigante Google, estima que a aplicação de IA generativa pode aumentar em cerca de 9% a produtividade da Administração Pública portuguesa num horizonte de dez anos, com impacto anual na ordem de 1,2 mil milhões de euros no PIB. Este potencial não substitui o papel humano no serviço público, amplifica-o. Liberta tempo, aumenta a capacidade de análise, melhora a qualidade de decisão e permite que as pessoas se concentrem no que é verdadeiramente humano: interpretar, relacionar, cuidar, decidir, servir.
No fundo, o que está em causa é simples: quando as pessoas aprendem, a Administração Pública transforma-se. Torna-se mais capaz, mais humana e mais preparada para enfrentar os desafios de um mundo em constante mudança, exatamente o espírito que o 1º de Maio nos convida a celebrar.
Margarida Carneiro
Chefe de Divisão de Formação e Desenvolvimento

