Comércio do Berço | Sapateiro José Rocha
"José Rocha. Sapateiro José Rocha, não sou engenheiro." É assim que se apresenta com a simplicidade de quem nunca precisou de mais do que o seu ofício para se definir. Com a “pequena oficina”, ali, há décadas, quem percorre a Rua de Camões encontra um lugar onde os sapatos ganham uma nova vida.
Em tom de brincadeira diz que não são muitos anos, "são só 58". Talvez tenha razão. O tempo é sempre relativo e, comparado com a quantidade de calçado que já passou pelas suas mãos, pode parecer pouco. Mas o ofício, esse, vem de muito antes. Passou do avô para o pai e, depois de concluir a quarta classe, José Rocha sentou-se naquele banco que nunca mais deixou. Fez dele o seu ganha-pão, mas também a sua forma de estar na vida.
O trabalho já não é o mesmo. Mudaram as pessoas, mudou o mundo e mudou o calçado. Hoje, há dias que lhe chegam mais sapatilhas, menos sapatos, ora o contrário. "Emenda-se de um lado, emenda-se do outro", diz, interrompido por uma cliente que, pelo à vontade, parece já fazer “parte da casa”.
Nem sempre há boas notícias. As sapatilhas que trazia desta vez já não tinham salvação. "É deitar fora", responde, com a serenidade de quem conhece o material como poucos. Ainda assim, deixa o diagnóstico de quem sabe: "o calçado, hoje, já não é como antigamente".
Quem passa pela Rua de Camões e espreita para a loja reconhece facilmente o rosto do Sr. José Rocha. Talvez ele não consiga recordar todos os rostos que por ali passaram ao longo de quase seis décadas. Mas conhece-lhes os passos. Antes de muitos pares de sapatos seguirem aquele caminho, passaram primeiro pelas suas mãos.
